domingo, 20 de janeiro de 2013

Um Pequeno Conto (Parte XVIII)


Já é dia e os sonhos acabaram. A guerra havia começado e você ainda não sabia de nada o que acontecera na noite passada. Mas sabia de uma coisa, no fundo do seu coração você sabia, que Aslan não os havia abandonado e que os sonhos foram claros demais para serem apenas sonhos. Havia algo por trás deles, mas sua mente se recusava a trabalhar tão cedo. Enquanto lutava para despertar sentiu um peso absurdo sobre seu peito e resmungou:

“ – Lance, eu disse para você não se empanturrar com tanto frango ontem a noite no jantar, não disse? Agora veja só, como vou pegar você no colo se mal consigo levantar com você em cima de meu peito?”, então você vira de lado, forçando o bichano a descer do seu peito e antes que comece a pegar outra vez no sono, uma voz meiga, mas mal humorada a faz despertar.

“ – Hora, não me ofenda Princesa! Meu peso corresponde ao meu valor, não estou acima do peso!” e com um ar de indignação Lance se levantou e sentou ao seu lado na cama a observando com olhos semicerrados  desconfiados e resmungou: “ – Penso que ela vai ficar feliz comigo, agora que podemos conversar como iguais, mas não... O que ela faz primeiro? Reclama que estou gordo, como sempre. Como se não fosse culpa daquela ração sem graça que ela me servia, francamente!”

Boquiaberta, você levanta e observa Lance reclamando, no fundo você sempre soube que ele era um pouquinho mal humorado, mas nunca pensou em ouví-lo falar! A surpresa transpassa seu coração, mas com ela vem uma certeza: os sonhos foram reais!

“ – Mas como... por... porque... foi Aslan?”

“ – Claro que foi...bom, porque eu não sei... mas Aslan disse que vossa graça precisaria de ajuda e me perguntou se eu gostaria de ajudar. Respondi que sim e ele soprou sobre mim. É interessante, porque não entendia muita das coisas que você falava comigo, entendia apenas se você estava triste ou feliz e fazia o possível para ficar ao seu lado. Mas com Aslan era diferente. Eu entendia tudo o que ele dizia. Fiquei assustado no início quando comecei a entender, meio que entender as cosas como vocês humanos entendem, e agora sou responsável por sua segurança! Por isso vamos levante. Temos muito o que fazer. Caspian já está de pé e trabalhando e você tem que me apresentar de uma forma descente ao rei. E não quero repetir a história duas vezes. Não, nada de coleiras, deixe isso de lado. Largue essa coleira mulher e me largue, pare de chorar você está manchando meus pelos!”

Mas mesmo enquanto reclamava Lance não rejeitou seu abraço e até deu umas lambidinhas discretas na ponta de seu nariz, nada que pudesse manchar sua honra felina. Assim que você se arrumou, saiu em disparada pelo Castelo, com Lance em seus calcanhares, para contar a Suzana e Caspian sobre seus sonhos.

Caspian e Suzana riram a valer de suas pequenas discussões com Lance enquanto você tentava descrever. Mesmo com as interferências de Lance, que ele chamava de correções, você viu os olhos de Suzana se enxerem de lágrimas à medida que explicava o que acontecera no sonho, ela já não conseguia conter um sorriso largo quando você falou do despertar do Grande Rei Pedro.

Uma nuvem de preocupação se abateu sobre o rosto de Caspian, mas ele preferiu não falar nada e no fundo você podia entender que, apesar de Caspian considerar o Grande Rei como um irmão, ele não poderia esquecer que um dia ele e Pedro haviam sentido ciúmes e disputado a fidelidade dos narnianos, a medida que lutavam para retomar Nárnia das mãos de Miraz, o Usurpador, e essa disputa resultou na perda de vida preciosas e até hoje Caspian não consegue se perdoar pelos seus próprios erros.

Mas, ao invés de expressar seus reais sentimentos, Caspian fez algo que você já estava sentindo falta: uma piada. Apesar de todos os problemas, Caspian ainda conseguia rir e isso fez com que seu coração se alegrasse.

“ – Bom pelo menos sabemos que você não fará nenhuma besteira, agora tenho olhos e ouvidos em você!”, disse Caspian com um sorriso no rosto e compartilhando um olhar de cumplicidade com Lance, que também sorriu para o rei.

A explicação de seus sonhos e seus possíveis significados durou horas, se estendendo do café da manhã ao almoço. É claro que você não fez menção ao que Aslan disse dos perigos que Caspian correria, essa era uma preocupação que o rei não precisava. Você também não fez menção ao fato de que seu coração pareceu parar, ou acelerar, você não tem muita certeza do que aconteceu com seu coração, mas algo aconteceu, quando seus olhos ficaram presos por segundos nos olhos de Pedro e de alguma forma Suzana percebera isso e a olhava de uma forma mais cúmplice do que antes.

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O Sol já ia alto quando você e Caspian, com a ajuda de Suzana, passaram a revista nas tropas narnianas. Da posição em que se encontravam podia se avistar o acampamento calormano e havia algo estranho acontecendo lá, que ninguém percebeu, a não ser você e Lance. Enquanto Caspian e Suzana decidiam o que fazer e como fazer, você e Lance desceram a colina para olhar mais de perto o acampamento inimigo. Porque mesmo que o acampamento vizinho estivesse à vista naquela posição, a distância ainda era muito grande para se enxergar algo com clareza.

Da base da colina, dentre as arvores, a distância era menor, mas o acampamento de Arãn ainda se parecia com um formigueiro aos seus olhos, mas a visão era um pouco melhor dali: As tendas calormanas pareciam ter diminuído de número e havia uma fenda enorme no chão. Uma algazarra movimentava o exército inimigo e no centro você podia ver Arãn esbravejando e agitando as mãos. Algo inexplicável acontecera e vocês estavam curiosos para saber o que atingiu o inimigo.

Então você se lembrou do sonho e agradeceu a Aslan em silêncio!

Assim que subiu a colina de volta, terminou a discussão de Caspian e Suzana e você fora chamada para se reunir com o conselho de guerra. Assim que tomou seu lugar em uma mesa ao ar livre percebeu que o conselho havia aumentado. Já não era somente Dr. Cornélio, Lorde Terbian e General Duran, estavam presentes também o anão ruivo Trumpkin, que ajudou a reaver o trono de Caspian, Ciclone, o líder dos centauros, Caça-trufas e um rato de armadura chamado *Pipcik, o novo Senhor dos Ratos falantes de Nárnia e aprendiz do próprio Ripchip.

Você se sentia desconfortável, como se fosse a única que não merecia estar ali. Pipcik não tirava os olhos de Lance e a inimizade era recíproca, mas Caspian deu um basta antes que palavras duras fossem trocados entre eles.
  
“ – Vocês estão aqui para decidirem o futuro de Nárnia e não para levarem a cabo um rixa antiga. Lance pare de rosnar, Pipcik, abaixe a espada ou trato a ambos como criança e os retiro do conselho!”

Com os ânimos mais calmos, deu-se início a uma reunião que mais parecia a você um sonho do que a realidade, pois toda ela girava ao seu redor e sobre aquilo que você deveria ou não fazer.

“ – A princesa poderia descer a colina neste momento em plena cavalgada e pegar o exército calormano de surpresa e quando o tirano Arãn pensar que pode nos vencer o senhor avança com seus homens. Juntos podemos botá-lo a correr agora mesmo!”, opinava o nobre rato.

Uma discussão acirrada se seguiu a essa sugestão. Os ânimos se alteraram novamente entre rato e gato e você não conseguia mexer um músculo. Mas ao ver seu jovem rei prestes a explodir com seus súditos, você se levanta e expõe um plano, meio suicida é óbvio, mas a idéia é criar distração, não porque queira que ele seja aprovado, mas porque quer que essa briga tola pare.

“ – Minha sugestão é que Ciclone e eu lideremos o exército narniano. Caspian enfrentará os calormanos primeiro com a infantaria e cavalaria humana para que possamos retirar as criaturinhas e os moradores de dentro das muralhas. Assim que voltarmos atacaremos pelo flanco esquerdo. A idéia de colocar os animais falantes na batalha só depois é esta: pegar o Tisroc de surpresa! Fazê-lo ver que Nárnia pode ser uma nação pequena, mas unida. E talvez possamos rechaçar o exército de Arãn para longe das muralhas e perto do Passo do Beruna, quanto mais longe dos povoados, melhor!”


Por um tempo o conselho considerou sua opinião. Caspian a olhava admirado, mas não se pronunciou, era preferível que o rei escutasse todas as considerações acerca de seu plano antes de se manifestar.

Mais discussões se seguiram, com Lance, Pipcik e Caça-Trufas se colocando contra esse plano, mas finalmente Caspian se pronuncia. Para ele você seguiria junto com os animaizinhos e com o povo, mas, como Pipcik fez questão de lembrar, não é honrado que um soberano abandone uma guerra sem lutar, mesmo que se trate de uma moça que nunca tenha participado de uma guerra antes.

 Um suspiro profundo faz o peito de Caspian inflar-se de dor: “ – Pois bem ... é um plano admirável, tenho que admitir, mas que põe a Princesa dos Vales do Leste em perigo, como saberemos que ela não será seguida? Tenho que lembrá-la, Princesa, que vossa graça nunca participou de uma guerra! Que Arãn pode ter espias nestes bosques! Mas se todos estão a favor e este, apesar de suicida, foi o único plano razoável, para não dizer bom  e sensato, assim se fará. Mas não com minha satisfação!”

Com um nó na garganta, você tenta, mas antes que possa refutar a opinião de Caspian, a Gentil se adianta, com dor e ironia na voz:

“ – Tenho que lembrá-lo, soberano, que Aslan nunca falhou na escolha de seus reis e rainhas? Ou acaso o senhor questiona a decisão de Aslan permitir que você a trouxesse para Nárnia? Ou pior, acaso vossa graça pensa que foi por sua própria vontade que foi a meu mundo e trouxe essa moça para cá? Caspian, lembre dos sonhos que a Princesa teve! Lembre que Aslan sempre aparece para salvar! Eu não suporto guerras tanto quanto você quer vê-la em um campo de batalha. Mas se é isso que tenho que fazer, então o farei. Lutarei por Nárnia mais uma vez! E se ela foi achada digna de defender o reino que o Grande Leão criou, deixe que o faça! Você a ensinou a lutar e ensinou bem. Ela tem seu valor, deixe que o prove então!”

Ao olhar para Suzana, você percebe uma expressão de pura resignação em seu rosto e sabe o quanto foi difícil para ela defendê-la e questionar Caspian dessa forma e também sabe, que apesar dos pesares, esse puxão de orelha doeu mais em Caspian do que em qualquer outro rei teria doído, ao menos eu não gostaria de ter um amor do passado puxando minha orelha dessa forma e na frente do amor do presente!

Tentando mascarar a dor e a frustração do momento, Caspian decide: " - Você levará o povo ao entardecer pela trilha colina acima, que segue para a Arquelândia, e no canto mais escondido desta esperará pelos animais pequenos de Nárnia e os levará em direção a Arquelândia junto com o povo telmarino. Antes de sua partida, o rei espera já ter recebido algum aviso da ajuda arquelandesa."

A tarde caía, quando você se aproximou de Suzana para agradecê-la, mas antes que pudesse falar alguma coisa, a Rainha a olha com frieza e vira de costas ao falar, mas você sabe que essa atitude na verdade se traduz em ciúmes e dor:

“ – Não fale nada! Foi mais difícil do que você imagina ter que falar de suas qualidades para Caspian, como se ele nunca tivesse prestado atenção nisso e também não fiz porque sou boa ou coisa parecida. Apenas não suporto a forma com ele lhe defende, como se fosse uma boneca de porcelana. Minha motivações não foram boas, só espero ter tomado a decisão certa e que você não se comporte como uma criança mimada e amedrontada, fugindo em pleno combate, nem que você seja morta ou coisa parecida, porque aí me sentirei culpada por mandar alguém tão imaturo para a guerra aberta...”, dando uma pausa para enxugar o que você pensa ser uma lágrima, a Gentil continua “ ... e também porque aprendi a gostar de você e penso que no momento final você será nossa última esperança!”. Então Suzana começa a andar e se afasta de você.

Ao ver a rainha se afastando, seus sentimentos são claros: ela depositou em você a mesma confiança que você depositou em Mensis. “Não Suzana, nossa única esperança é Aslan, não deposite em meus ombros um fardo que não posso carregar!”, você pena e se dirige para a formação de soldados narnianos que a espera.

Assim que se posiciona na frente da fila junto de Ciclone, Lance e Caça-Trufas confirmam a retirada dos citadinos das muralhas e que estes já estão prontos para partir. Você se prepara para montar em Destro, mas uma mão firme e forte puxa seu braço direito. Ao se voltar para trás você se depara com Caspian. O rosto do rei é uma máscara de ansiedade e dor. Os olhos reais estão cheios de preocupação e marejados pelo o perigo que você pode vir a enfrentar, mas ele não pede ou sugere que não vá, o rei já se resignou. Sem falar uma palavra, Caspian a envolve em seus braços e pede baixinho para que só você ouça:

“ – Por favor, tome cuidado! Eu já não seria capaz de resistir sem você! Volte para mim em segurança!”

* Pipcik está no livro Príncipe Caspian!

OBS: O texto foi escrito por mim e é proibido seu uso ou cópia integral, ou de fragmentos, sem a autorização da autora. O mesmo vale para todo e qualquer conteúdo deste blog que seja de minha autoria. Sua cópia ou uso sem autorização é qualificado como plágio, sendo configurado como crime previsto no Código Penal. O infrator está sujeito as punições previstas no Art. 184 do Código Penal - Decreto Lei 2848/40

Kamila Mendes

2 comentários:

Evy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Evy disse...

Ótimo capítulo , Kami!
Estou muito contente que vc tenha começado a postar a fic com mais frequencia, eu sei que seu tempo é corrido e tudo mais, mas fico muito feliz mesmo ^^
Nárnia e Aslan tb agradecem xD