quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobrecarga: Recomeço


Para sua surpresa, Miguel a levara para um local escuro e escondido atrás do estádio da cidade. Ele foi adentrando cada vez mais a escuridão e quando viu que Melissa estava parando desconfiada, a puxou pelo braço e imprensou na parede. Pôs seu rosto bem perto do dela e sorriu. “Não precisa ter medo. Não vou te machucar”. Então fez algo pelo qual ela não esperava, não conscientemente. Deu um beijo, nada de muito intenso, apenas um selinho. Miguel sorriu e beijou a ponta de seu nariz e continuou a puxar uma Melissa pasma e com um sorriso bobo no rosto.

Foi quando ela começou a ouvir. Uns ganidos distantes. E correu, passou por Miguel como uma bala. Correu até encontrar. E encontrou. Na única parte iluminada daquele galpão, havia uma caixa. Miguel sorria como criança:

- Quando eu era mais novo, meus pais e eu cuidávamos de um canil. Isso foi antes da fome, da doença do alcool. Eu passava horas brincando com os filhotes e lembrei que isso me deixava feliz. Então, hoje de manhã, enquanto ia para escola, ouvi uns gganidos bem baixinhos. Eram esses camaradinhas aí. Sua mãe fora morta por algum vagabundo. São orfãos como eu. Pensei que você gostaria de me ajudar. Não tenho pra onde levá-los, mas acho que se cuidarmos bem, podemos doá-los para algum canil, ou mesmo famílias. E eles não vão crescer nas ruas.

Melissa sorriu. Amava animais e era a única coisa que não tinha em comum com Paulo. Pela primeira vez, desde muito tempo, não sentia dor. Só sorria. Era como se o beijo e os filhotinhos tivessem despertado algo nela. Não a antiga Melissa, morta e enterrada com Paulo. Mas algo novo, adormecido e mais maduro estava acordando. Se esticava de forma manhosa dentro dela e fazia cócegas em sua alma.

Enquanto apreciava aquela sensação e acariciava um dos filhotes. Miguel puxou seu pulso direito e olhou por baixo da munhequeira. Com um suspiro profundo, olhou nos olhos raivosos de Melissa e disse:

- Por favor, não se corte mais. Eu sei que dói, mas quando você se machuca me machuca também. Vamos enfrentar isso juntos. Deixa eu ser o motivo desse sorriso lindo e me ajude a cuidar desses bebês. Em troca, te prometo não dar motivos pra chorar e se o fizer tentarei te fazer feliz, ou o mais perto disso que eu conseguir.

- Sabe Miguel, acho que temos uma filha. Seu nome vai ser princesa. Ela meiga e mansa como eu era, mas aperte sua patinha. Viu? Ela mostra os dentes. É perfeita, uma mistura do que eu fui e do que eu sou. Quer ser o pai dela?

Sorrindo, Melissa ainda pensa na dor que resvala os dedos na fina e transparente membrana de felicidade que envolve seu coração. Ela luta contra a dor que quer ir à tona e contra essa fútil e adorável sensação de contentamento. Desde a morte de Paulo, a garota não sabia o que era sorrir espontaneamente. Já não fazia brincadeiras como a que acabara de fazer.

Vendo o sorriso torto no rosto de Miguel, Melissa não teve coragem de negar aquele momento tão ternamente oferecido por ele. Bobagem aos olhos de fora. ‘São apenas cães’, eles vão dizer. Mas olhos brilhantes de lágrimas pendentes da menina diziam muito mais que meras palavras. Era uma promessa de recomeço. Iria ser dificil, mas, como os olhos brilhantes do filhotinho no seu colo prometiam um mundo de descobertas, ela sabia que teria que fechar os olhos e se lançar. Mas sabia que não estava sozinha. Ele estava lá e estaria ali, bastava estender a mão.


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Kamila Mendes

4 comentários:

Cris disse...

Nuss mana muito bommm, amei a parte de quando ela diz qe quando aperta a patinha a cachorrinha mostra os dentes rsrs. Você escreve mto bem! Mas esse foi o ultimo não vai continuar não?? bjoss best te amo e te admiro mto"

Matheus disse...

- Como assim acabou? U_u
- kkkkkkk... Continue, plsssssss....

Kamila Mendes disse...

não sei se devo continuar essa história, Math e Cris...tenho medo de virar um romance longo e cansativo!

Dri disse...

best eu acho que vc deve pelo menos escrever mais um capitulo, contando o que aconteceu com miguel e melissa...
aiii eu amei a historia dos cachorrinhos
escreva pelo menos mais um, sobre o futuro deles *---*