sexta-feira, 24 de maio de 2013

Que venha a próxima semana!


Crônica de Sexta

*Micaela chegou atrasada no trabalho. Esbaforida abriu a porta do consultório, trancou-a. Constatou que a psicóloga já estava atendendo e descansou.

Fez sua rotina usual: colocou a cadeira na posição certa, arrumou as fichas de novos pacientes, organizou a planilha de pagamentos e, quando finalmente, iria sentar para começar de fato seu dia de trabalho, foi surpreendida por um toque na campainha.


Surpresa, Micaela abriu a porta e recepcionou uma paciente que chegara uma hora antes do horário de sua consulta. Acomodou a moça de 15 anos e voltou a sua posição de secretária. Mas, pelos próximos 60 minutos não imaginou que seria surpreendida por revelações de uma jovem aparentemente tão calma.
Cerca de três minutos, foi o tempo que a jovem *Paola levou para desatar a falar como uma metralhadora. Atordoada Micaela deu atenção a menina.

Eu vim aqui por causa disso!”


E antes que Micaela perguntasse o que era, havia um pulso estirado, quase esfragado em seu nariz, com um alguns riscos, algumas cicatrizes. Micaela não teve escolha, a não ser conversar sobre os cortes no pulso da garota.
- Então você se corta! Com o que fez esses cortes?

- Com a lâmina de um apontador!  

Não foi a sinceridade de Paola que a surpreendeu, mas a naturalidade com a qual falou. Uma garota de 15 anos procurando aprovação. Os próximos minutos foi uma sucessão de perguntas e afirmações do tipo, deixa eu te falar uma coisa, sabia que eu pinto o cabelo de rosa? Gosto de fazer o que é proíbido! Sou roqueira! Amo anime! Detesto ser julgada!

Micaela foi invadida por ondas e ondas e auto-afirmação e perguntas que buscavam a aceitação. A única coisa que podia fazer era deixar seu trabalho de lado e conversar. Foi o que fez.

A hora de espera passou com uma rapidez única. Micaela conversou sobre namoro, tintas de cabelo, unhas, saltos, angustia, pilates, anime, cosplay, impaciência, vontade de ser aceita, vontade de que os pais a entenda, querer ser aceita pelas irmãs. Então a porta interna do consultório se abriu e a psicologa se despediu da paciente das 8h e recepcionou Paola. A sessão dela havia começado.

Micaela sorriu ao ver a menina entrando na sala do psicólogo, mas uma dor aguda ficou martelando em seu peito. Uma pergunta soando em sua mente: Quantas mais existem como ela? Quantas crianças e adultos sofrem com dores emocionais intensas e não conseguem colocar pra fora?

As perguntas pararam, pois iriam levá-la a um buraco sem fundo. Mas sabia de uma coisa: na próxima semana Paola voltaria, e seria mais um momento de conversas intermináveis, compartilhamento de ideias e ela poderia compartilhar da presença daquela garota que, apesar do bullyng que sofre na escola, e de toda autodepreciação  é uma menina adorável e marcante! Então, que venha a próxima semana!

OBSO texto foi escrito por mim e é proibido seu uso ou cópia integral, ou de fragmentos, sem a autorização da autora. O mesmo vale para todo e qualquer conteúdo deste blog que seja de minha autoria. Sua cópia ou uso sem autorização é qualificado como plágio, sendo configurado como crime previsto no Código Penal. O infrator está sujeito as punições previstas no Art. 184 do Código Penal - Decreto Lei 2848/40

Kamila Mendes

2 comentários:

Eilan disse...

É... quantos estão sofrendo por aí e nem sabem que tem um transtorno, não entendem o que lhes acontece e se acham loucos.

Adorei seu espaço.

Bjos,

Eilan

borderline-girl.blogspot.com

Luciana Souza disse...

Oi Kamila
É minha primeira vez por aqui mas já estou te seguindo, pois gostei muito do jeito que vc escreve, prende o leitor do começo ao fim.
Bjos.
http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br