domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um Pequeno conto (Parte XXI)

Suas mãos, braços e pernas formigam devido à má circulação do sangue. Quem quer que seja que a tenha amarrado se certificou de que as cordas estivessem bem apertadas para que o sangue mal circulasse pelos seus braços. A cabeça dói com um incessante latejar de suas têmporas, os pés estão descalços e gelados. Talvez seja noite, pelo frio que está fazendo, ou o fundo da caverna onde lhe colocaram seja fria, não importa onde nem como, porque a única coisa que a incomoda muito mais que o frio é a escuridão. Você não consegue ver nada, nem sequer sabe se está com os olhos abertos e essa escuridão faz descer sobre seu corpo um sono tão forte que mal consegue se manter acordada.

Você tenta se levantar, mas não consegue. Suas pernas estão fracas e pesadas da luta. Por falar em luta, você ainda se lembra de ouvir os momentos seguintes da batalha após seu rapto, mas como continuava a lutar e se debater, o calormano que a carregava não pensou duas vezes: a depositou no chão como se estivesse largando um saco de batatas e a esbofeteou tão forte que, antes de desmaiar, a única coisa que conseguiu ver foi um sorriso de escárnio no rosto daquele soldado.

E agora você se sente só com uma sensação estranha no lado direito do rosto, uma queimação ao redor do olho que se estende até o queixo e algo úmido deve ter encostado em você, provavelmente o chão da caverna deve estar molhado, porque seu rosto, pescoço e parte seu vestido, próximo ao peito, estão pegajosos e o cabelo está grudado ao redor da nuca e pescoço.

Mas o pior não é não saber onde está, nem é o sono horrível, porque esse a mantém distante de tudo, nem o fato de não saber o que é a umidade em você e nem porque sua nuca lateja tanto. O piro é o medo, um imenso medo a paralisa, até respirar é difícil. Onde em toda sua vida, você pensou em ter medo de lugares escuros? Nem pensando consegue chegar a uma resposta. O fato é que o medo está tomando conta de você. O desespero está chegando com garras sedentas querendo agarrar o seu coração e roubar toda a esperança. Nem um pensamento sequer passa em sua mente, nem o desejo de lutar. Sua mente está tão dormente pelo medo que você chega a ansiar pela morte e em silêncio a única palavra que você consegue formar com a boca é “Aslan” e então, mais uma vez, desmaia.

Junto com a inconsciência vem um sono irrequieto e inconstante que toma conta de você. Vozes a acordam, a todo momento elas vem e, com a mesma rapidez que você as ouve, elas também se vão. Os passos são os piores, eles chegam tão próximo, você consegue sentir a vibração dele no chão onde está deitada e sua face esquerda dói e arde com a trepidação dos passos e, o pior, você não sabe se eles são reais ou não e depois vem aquele escuro e vazio silêncio, que a faz desejar que os passos voltem. Os sonhos também são constantes, mas estes são diferentes é como os primeiros presságios de guerra, mas são piores porque você não sabe se eles são sonhos ou mera alucinação.

Em uma das alucinações que o sono provocava um grifo falou com você. Ele tinha uma fala mansa, mas você sequer conseguia vê-lo. Só soube que era um grifo pelo bater das unhas no chão da caverna e pelo farfalhar das penas. Ele lhe trazia algum recado, mas mal o ouviu, pois o sono veio outra vez e dessa vez trouxe as duas imagens pelas quais você mais ansiava: Aslan e Caspian.

O Leão e o rei estão conversando e então Aslan a vê e sorri. “ – Está tudo bem minha pequena. Você já, já sairá daí. Tente descansar!”, e continua andando com seu rei que possui um semblante pesado. Caspian tem os ombros caídos, um ar de derrota traspassa o rosto do rei. Há sangue em sua roupa e você apenas pensa, sem nenhuma preocupação, que o sangue pode ser dele. O sono lhe privou de sentimentos fazendo você esquecer de qualquer preocupação com seu rei.

Enquanto os observa um raspar de pedras chama sua atenção. Preguisoçamente você se inclina para ouvir e o som parece bem real diferente do sonho e então um baque de algo sendo jogado ao seu lado a arranca do sonho.

Você acorda com um sobressalto e tenta enxergar o que está acontecendo. Seus olhos estão pesados e sua mente está confusa. Você não consegue distinguir o que é sonho e o que é realidade. Sua única chance é identificar os sons, mas a confusão de granidos e choque de metal contra metal não permite que você identifique uma coisa sequer. Então aquela mesma fala mansa se aproxima e a chama para a realidade. Até então, você estivera em um estado que a deixava inconsciente por horas. Agora que estava acordada foi que percebeu o que acontecia.

A sua frente, tochas foram acesas, você começou a discernir formas na pequena luminosidade que as chamas lhe davam e viu, para sua surpresa, três grifos lutando bravamente contra um grupo de dez calormanos. Uma voz a chamou de novo e dessa vez você compreendeu:

“ – Princesa, acorde, nós temos que ir. A Rainha não suportará mais tempo do que já suportou distraindo o pelotão calormano. Vamos minha senhora, eu sei que dói, mas tente acordar eu preciso que a senhora monte em minhas costas!”

Você tentou falar, explicar que não conseguia levantar, mas a boca estava seca. Era como se você tivesse engolido um garfo que rasgou toda sua garganta e que agora estava sem fala também. Com um esforço que fez todo seu peito e costas ribombarem de dor, você tossiu para limpar a garganta e tentar falar. Sua voz arranhava com a secura da boca e foi aí que percebeu que todo o tempo que estivera ali nenhuma gota de água lhe fora oferecida.

“ – Não...eu...(você engoli em seco, pois até falar é difícil) ... não consigo levantar...minha cabeça dói... tudo roda... as mãos formigam... não consigo!”

Então o grifo a avaliou e você viu o sangue fugir do rosto daquele animal esplêndido. Com o bico ele passou a desatar os nós das cordas que a prendiam pelas mãos e pés, e gentilmente passou a cabeça por baixo de seus braços. Você içou o corpo com muita dificuldade e ele fez todo o trabalho para se ajeitar embaixo de seu corpo em uma posição que fosse segura para você!

Assim que o grifo fica em pé, com você em suas costas, um estrondo os atinge junto com estilhaços de madeira e uma voz distante grita para que partam imediatamente.

“ – Quem...quem era?”

“ – A Rainha Gentil conseguiu! Vamos milady, essa é a nossa deixa. Segure-se o mais firme que puder e eu faço o resto! Era o imediato da Rainha Suzana, Princesa, eu a avisei que viríamos, mas acho que vossa graça está fraca demais para lembrar. Estive aqui antes e a avisei quem voltaria com um grupo de resgate chefiado pela Rainha. Temos homens espalhados por toda fortaleza e a rainha em pessoa está enfrentando seu algoz neste momento!”

Antes que pudesse formular uma resposta coerente, a criatura levantou voo  com um solavanco, e começou a atravessar a escuridão daquela caverna em uma velocidade terrivelmente perigosa, qualquer deslize e ambos morreriam esmagados contra as pedras. O vento batia contra seu rosto e você se sentiu viva pela primeira vês desde que chegara aquele terrível local. Então, como se apenas estivesse esperando que você pudesse admirá-lo, o sol aparece diante de vocês. O grifo voou até o túnel final da caverna e agora estava planando sobre uma estepe verde.

O ar puro encheu seus pulmões e seus olhos de lágrimas. Liberdade, você não sabia o quanto essa palavra era tão doce até esse momento. O medo a deixou, suas mãos, braços e pernas estavam vivos outra vez e o desejo de morte já não agarrava mais seu coração. Com muito esforço, você ergueu a cabeça deixou que o vento bagunçasse seus cabelos, o doce sabor da liberdade invadia seu coração e encheu seus lábios de um riso suave e revigorante, até que o grifo deu uma guinada e desceu em direção da estepe.

Lá embaixo uma terrível batalha se travava. Homens telmarinos e grifos estavam em pleno combate contra soldados calormanos. A frente da batalha estavam Suzana, liderando a equipe de resgate narniana e do lado calormano estava uma mulher de longos cabelos negros e de intensos olhos verdes. Você conhece aquela mulher de algum lugar, até que um soldado calormano se joga a frente de uma flecha de Suzana para proteger a mulher e você se lembra.

A primeira vez que você a viu ela estava em volta em túnicas escuras e um véu que só permitia que seus olhos fossem vistos. Foi a primeira a descer da liteira que transportava as mulheres de Arãn e a única que não demonstrou dor ou desespero de pertencer aquele homem. Ao contrário, a rainha Zilia mostrava completa satisfação de ocupar o lugar de primeira esposa do Tisroc e em seu olhar se deslumbrava a mesma raiva, rancor e soberba de Arãn. Aquela mulher é tão perigosa quanto seu marido e ela agora enfrenta a rainha Gentil em pleno campo de batalha e você não pode fazer nada para ajudar. É a primeira vez que Suzana luta sozinha!

OBSO texto foi escrito por mim e é proibido seu uso ou cópia integral, ou de fragmentos, sem a autorização da autora. O mesmo vale para todo e qualquer conteúdo deste blog que seja de minha autoria. Sua cópia ou uso sem autorização é qualificado como plágio, sendo configurado como crime previsto no Código Penal. O infrator está sujeito as punições previstas no Art. 184 do Código Penal - Decreto Lei 2848/40

Kamila Mendes

1 comentários:

Evy disse...

Nossa, kami! Vc descreveu tão bem a sensação de confusão mental e atordoamento da nossa heroína que eu me senti como ela.
Ótimo capítulo!