quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Um pequeno conto! (Parte XIX)

A cavalgada é longa e extenuante. Os cavalos espumam de cansaço e sede e no fundo você se sente mal por forçá-los tanto, mas é uma questão de vida ou morte. Daqui a alguns minutos atingirão a clareira e se encontrarão com os animaizinhos e a vida de todos estará no seu senso de direção, que, eu tenho que admitir, é péssimo.

“ – Lance, Pipcik... espero que seu senso de direção seja melhor do que o meu!”, você fala com uma ponta de humor na voz, apenas para animar seus companheiros de viagem. Mas ninguém responde. Todos estão cansados e preferem guardar silêncio. Milhões de pensamentos rodam em sua mente e o mais aterrorizante é a lembrança de um sonho em que você buscava vingança “Mas de quê e por quê?”

A noite já vai alta e o vento bate gelado contra seus corpos cansados. Ciclone, o centauro, para afirmando que ali é o melhor lugar para acampar. Vocês já estão na clareira, mas não há um sinal das criaturinhas. Um arrepio corre pela sua espinha ao pensar que podem ter caído em uma armadilha. Imediatamente você ordena a Lance que desça do cavalo e espere na mata fechada. Ele esteve montado em Destro com você, na realidade você ordenou que ele se portasse como um animal doméstico qualquer carregado em uma cesta de vime. Não é preciso dizer que ele não gostou da cavalgada.

Um vento mais forte soprou pela floresta fazendo com que as árvores vibrassem. Se você tivesse a sensibilidade da rainha Lucy, saberia que a floresta está lhe dando um aviso de perigo, mas as arvores permaneceram caladas por tanto tempo que era difícil até para Ciclone, um centauro profeta, interpretar seus avisos, mesmo quando as palavras não eram claras.

As arvores vibravam e estalavam com a força do vento e de súbito um barulho como o som de chiados, garnidos e rosnados de animais se fez ouvir. Destro empinou e relinchou alto tentando correr, mas você o manteve no lugar. Lance se atirou em direção de seu colo e olhou fundo nos seus olhos. Sua única reação foi:

“ – Corra o mais rápido que você puder. Pipcik vá com ele. Corram até as muralhas de *Anvar e dêem o alerta e o seguinte recado ao rei Balian: Nárnia foi sitiada, a Princesa dos Vales do Leste foi presa e levada como refém não se sabe para onde. É de se esperar que haja um traidor dentre os súditos do Rei Caspian X, o Navegador, ou que alguém do exército inimigo tenha escutado nossos planos. Honre os acordos com Nárnia, esqueça o passado e honre a confiança que Nárnia depositou em seu herdeiro e chegue a tempo de unir seu exército com o do Rei Caspian. Evite a trilha conhecida, pois é uma emboscada. Assim que vossa majestade ouvir esse alerta o povo que vive dentro das muralhas de Cair Paravel terá sido escravizado junto com os animais indefesos do bosque. Nárnia precisa de você!

Esse é o recado Lance. Não Pipcik, você não pode ficar. A batalha maior acontecerá nas muralhas do castelo de Cair Paravel e perante os portões de Anvar, sua coragem será necessária lá. Convençam Mensis de que ele pode mudar o rumo dessa guerra. Vão! Lance, eu também te amo!”, com lágrimas nos olhos você dá essas ordens aos dois animaizinhos que mais amou em toda sua vida, sabendo que suas vidinhas estão correndo um enorme risco de agora em diante.

Com um abraço apertado, você se despede de Lance que trava uma corrida desabalada dentre as arvores, evitando o regimento calormano que se aproxima. Pipcik conta 150 soldados avançando contra você. O instinto do nobre rato é voltar para defender sua real pessoa, mas impelido pelo juramento de obediência á coroa de Nárnia e contrariando os ensinamentos recebidos de seu preceptor Ripchip, o Senhor dos Ratos contínua a correr. Agora, gato e rato correm juntos para tentar impedir a invasão de Anvar e a queda de Nárnia.

Assim que seus mensageiros desapareceram na floresta, um fauno se aproxima e pergunta sobre a invasão a Anvar. Sua resposta é óbvia:

“ – Uma vez que Arãn tiver dominado Nárnia seu próximo passo será invadir a Arquelândia e ele irá começar pela capital do reino. Arãn não se contentará enquanto houver reinos livres neste mundo..”

Um som a interrompe e em choque você observa um uma massa de corpos correndo até você. A clareira foi invadida por pequenos animais falantes de Nárnia fugindo e lutando. São os sobreviventes do grupo de resgate aos pequenos animais. Era um grupo pequeno que tomou a mesma decisão que você: mandou um mensageiro, o esquilo Farfalhante, até Caspian para contar o fracasso da missão anterior e possível ataque ao seu grupo.

Mas antes de contar o que aconteceu na clareira é preciso contar o que aconteceu com os pequenos animais.
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Após a batalha travada contra os soldados narnianos no dia em que a guerra foi declarada, Mensis correu em direção a casa paterna e o exército narniano em direção a muralha esquerda do Castelo de Cair Paravel. Acontece que no fervor de chegar a seus destinos, os narnianos se esqueceram de revistar os soldados caídos, a fim de encontrar algum sobrevivente. Esse foi um grande erro, pois um soldado calormano havia se jogado no chão e permanecido lá, fingindo-se de morto e ouvindo as estratégias de Caspian, até que o exército de animais falantes se dividiu.

O soldado correu um dia e uma noite até chegar à tenda do rei calormano. Há de se dizer que Arãn tentou de todas as formar apagar a imagem de Aslan, marcada pelo fogo na areia, ma não obtendo sucesso ergueu sua tenda a um quilometro da **“medonha imagem” e ordenou que nenhum soldado atravessasse aquele trecho, pois poderia ser um feitiço que atrairia má sorte. O fato é que todo acampamento calormano se deslocou cerca de dois quilômetros de suas trilhas de ataque já traçadas e isso deu uma vantagem de dois a três dias a Caspian.

Assim que recebeu a noticia, Arãn, vendo que o ataque a Caspian seria atrasado, teve a brilhante idéia de interceptar a fuga do povo. Essa seria a primeira e pior derrota que ele infligiria a Caspian.

Um regimento de duzentos homens atravessou a floresta e se pôs em combate com os pequenos animais falantes. Estes, apesar de indefesos, se uniram aos ratos, gatos e lobos, que cuidavam de sua segurança, e enfrentaram os calormanos. É preciso ressaltar a coragem dos animaizinhos que derrubaram 50 homens de Arãn, mas não vendo alternativa, recuaram e correram floresta adentro na esperança de despistar os calormanos, mas estes tinham cães de caça, escravizados desde filhotes, que não perderam seu rastro.

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Foi o restolho dessa batalha que chegou a você. Animais pequenos, ouriços, esquilos, topeiras, pequenos macacos, cervos e outros animais pequeninos, falantes e não falantes, que vivem na floresta correndo em sua direção. Em seu desespero gritavam: “Princesa, Princesa corra! Salve sua vida”, outros, menores que os primeiros, gritavam “Socorro, socorro, não nos deixe. Nos ajude! Nos salve!”.

Você não podia fazer nem uma coisa, nem outra e então se preparou junto com seu pelotão, que contava 50 narnianos, entre centauros, anões, minotauros e um ou dois ursos, e com a chegada dos animais moribundos e dos poucos gatos e lobos que sobreviveram, estavam em um número de 70 a 80 narnianos.

O medo aguçou os seus sentidos e você via claramente o regimento calormano chegando e ouvia perfeitamente suas ordens “ – Matem todos, somente a princesa deve ficar viva!”

“Ah, não. Não servirei de vergonha para Caspian, ou para Nárnia. não deixei meu mundo para servir de piada para um rei tirano!”

Enquanto pensava, Ciclone olhava para você batendo os cascos em antecipação a batalha, só então você se lembrou que a cadeia de comando começava por você. Ao olhar para seus soldados, você soube que esse não era momento para fraquejar. Fúria das Estrelas parecia pegar fogo em suas mãos. A espada brilhava como a luz do amanhecer. Os lobos e gatos selvagens (tigres, guepardos, leões, gatos do mato) rosnavam e
mostravam as presas, os centauros batiam os cascos, os ursos urravam, minotauros cavavam o chão e os pequenos animais pareciam ganhar ânimo ao reluzir de sua espada.

Uma voz firme, profunda e grave em sua mente disse “Coragem, Princesa. Esse não é o momento para fraquejar. É normal sentir medo, a fraqueza ou a coragem é apenas o resultado do que decidimos fazer com o medo!”

Ao comando dessa voz, uma força desconhecida tomou conta de seu corpo. O regimento calormano agora adentrava a clareira. Homens cobertos por cotas de malha, segurando cimitarras e lanças, com longas barbas e turbantes avançavam contra você. E cada vez mais próximos.

Você não sabe como e nem porque impediu que Ciclone avançasse e o mandou esperar.

“ – Calma, ainda não. Espera... Mais um pouco... mais um pouco... Cheguem mais perto, só mais um pouco... Agora!”


E mesmo sabendo que era um clichê de todas as histórias de guerra que você ouvira de Dr. Cornélio, um grito irrompeu de dentro de suas entranhas. Algo familiar, mas desconhecido para seus lábios. Mas enquanto gritava, sentia toda a floresta reagir ao comando.

“ – Por Nárnia e Por Aslan!” ...

*Anvar é a capital da Arquelândia, e é o palco principal da batalha que ocorre no livro O Cavalo e Seu Menino.

**No livro o Cavalo e seu Menino, Lewis deixa bem claro que para os calormanos Aslan não passa de um demônio em forma de Leão.


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Kamila Mendes

2 comentários:

Evy disse...

Mais um excelente capítulo da fic!..a cada capítulo eu fico com uma ansiedade danada e um aperto no coração rsrs

Gerson Alan disse...

Parabéns pelo seu bom trabalho. Sou fã de pessoas que em sua essência se doam nos presenteando com ótimos trabalhos literário e que assim sendo enriquecem ainda mais nossa cultura literária. "Nosso povo vive sedento de cultura..." Desejo-lhe boa sorte! Abraços!