quarta-feira, 10 de abril de 2013

Jeito redondo de ser

Detestava quando isso acontecia. Sentava na cama frustrada e acrescentava mais uma peça a crescente pilhas de roupas que já não serviam mais. Se sentia deprimida olhando para cada roupa descartada. Eram atestados de seu aumento de peso. Eram marcas flamejantes de feridas abertas em seu ego ao decorrer dos anos.

Odiava se sentir assim. Mas acabava cedendo aos padrões do mundo e desejando um corpo mais esguio. Não queria ser um esqueleto ambulante, mas também não se sentia bem em ser uma botija de gás (um dos tantos apelidos de mau gosto recebidos na infância). Não tinha curvas mais cheinhas, aliás, só tivera curvas quando adoeceu e isso foi há muito tempo.

Olhava no espelho e com as mãos segurava a massa adiposa que somava em seu abdômen. Culotes impediam as calças jeans da moda de subirem e, quando por milagre, alguma entrava, não fechava na cintura. Se bem que nunca soube o que é ter cintura.

Já estressada, com raiva e chorando de tanta frustração, fitava a pilha de roupas a sua frente e tinha vontade de botar fogo em tudo. Mas sabia que isso não resolveria o problema. Se deixou cair pesadamente e sentiu as ondulações do impacto pelo corpo. Desejo, entre lágrimas não conhecer aquela sensação pesada de ser dois números acima do esperado.

Abria a boca para brigar contra a ditadura do corpo esquelético, mas se quer possuía curvas saudáveis. Seus protestos mais pareciam despeito.

Por fim, vestiu o único vestido que não deixava seus pneus salientes. Sem muita vontade de se arrumar, já triste demais consigo mesma, passou apenas um lápis no olho, brilho labial. Jogou o cabelo pro lado, calçou um saltinho e foi pra sala.

Ombros caídos, coração pesado. Vontade de desistir, tirar a roupa e se esconder debaixo das cobertas se condenando pela própria aparência. Horrível se sentir mal em seu próprio corpo.

Caminhou para sala e ficou parada. Olhou nos olhos dele e disse: "Foi o máximo que consegui"

Ele abriu aquele sorriso grande e lindo. Fez com que ela quisesse chorar. "Você está linda, mas do que nunca". Levantou e a envolveu em um abraço apertado. "Não importa o quanto você pense que não, mas você é linda de qualquer jeito!". Ela se encolheu em seu abraço protetor e, apesar de não se sentir linda de forma alguma, ficou feliz por ele gostar dela desse jeito redondo de ser.

OBSO texto foi escrito por mim e é proibido seu uso ou cópia integral, ou de fragmentos, sem a autorização da autora. O mesmo vale para todo e qualquer conteúdo deste blog que seja de minha autoria. Sua cópia ou uso sem autorização é qualificado como plágio, sendo configurado como crime previsto no Código Penal. O infrator está sujeito as punições previstas no Art. 184 do Código Penal - Decreto Lei 2848/40

Kamila Mendes

2 comentários:

Bia Hain disse...

Oi, Kamila! Acho uma violação ao outro esse negócio de querer impôr um padrão de beleza. Primeiro, porque há vários tipos de beleza e segundo, porque quando nos sentimos bem, estamos lindas! Um abraço!

Luana Farias disse...

Ai adorei o texto pois é as pessoas colocam padrões e depois os outros se sentem mal. Fazer o que? Não dar bola.

Bjs